A despedida silenciosa de uma grande mulher

Recebi a notícia da passagem de Lourdes Bandeira na noite desse domingo, e no silêncio da prece, elevei meu pensamento a Deus para agradecer a passagem dessa mulher gigante em minha vida. Foi minha orientadora de mestrado em Ciências Sociais, na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde era coordenadora do Programa e ainda encontrava tempo para sala de aula e cuidar de seus estudantes. Sim, cuidar, essa é a palavra correta.

Em toda a sua carreira profissional, sempre nos ensinou os valores da humanidade: empatia, solidariedade e justiça social. Mulher forte em todos os espaços públicos que assumiu em defesa da vida das mulheres do campo ou da cidade, contra qualquer forma de opressão, machismo ou violência. Entre um de seus maiores legados, encontram-se as filhas e filhos do mundo, entre elas, eu, a quem sempre dizia: “Nós queremos todas vivas e para isso, vamos lutar até o último minuto das nossas vidas”. E assim o fez.

Sua história de luta em nossa defesa vem de longas datas, desde a sua graduação em Ciências Sociais, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS/1973), passando pela UFPB quando sofreu um acidente automobilístico ao se deslocar de João Pessoa à Sapé para se encontrar com as mulheres trabalhadoras do campo, na luta pelo acesso à terra e à dignidade do bem-viver. Naquela ocasião, viu morrer no asfalto a professora Elizabeth Souza-Lobo, colega da Universidade de São Paulo (USP), e um dia depois, a trabalhadora rural Maria da Penha do Nascimento Silva (sucessora de Margarida Alves), mas não se curvou.

Uma mulher das Ciências Sociais e Humanas, dedicou seu doutorado e o pós-doutorado na Université René Descartes de Paris V (1984), na área de Sociologia do Conflito, para compreender o sentido e o valor da paz numa sociedade repleta de ódio e violência contra nós.   

Colocou seus conhecimentos a serviço das mulheres, foi assim quando exerceu no governo federal o cargo de Subsecretária de Planejamento e Gestão Interna da Secretaria de Políticas para Mulheres da Presidência da República (SPM-PR) e Secretária-Executiva da mesma secretaria. Foi essencial na construção da Lei Maria da Penha.

Sempre esteve comigo nas bancas das minhas doutorandas e mestrandas, com pesquisas sobre feminicídio ou violência contra as mulheres. Em nossa última banca juntas, nos dizia: “Ter o marco legal da Lei Maria da Penha, foi uma conquista, mas, a estrada é longa para pôr fim à violência contra nós, mulheres”.

A cada banca, nunca cansei de falar, aqui há um encontro de geração. A professora Lourdes foi uma das pessoas que me preparou para os desafios do mundo. Com ela também aprendi a pensar e refletir sobre o ele, condição necessária para ajudarmos a construir uma sociedade livre e, radicalmente, democrática.

Esteve comigo nos momentos mais difíceis na busca pela conquista dos espaços de poder para as mulheres, como dever de cidadania e consciência política, foi assim na gestão do Núcleo de Estudos em Saúde Pública (NESP), quando colaborou na criação do Observatório das Violências. Também me apoiou, incondicionalmente, quando da candidatura a governadoria do Distrito Federal e mais recentemente, à candidatura a Reitoria da UnB.

Partiu, deixando em nós o reflexo de suas lutas. Dela, me despeço, com as palavras do poeta: “As pessoas não morrem, ficam encantadas… a gente morre é para provar que viveu.” João Guimarães Rosa.


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