O Dia Internacional da Saúde e o nosso maior patrimônio

Todos os anos, neste dia dedicado à consciência coletiva em defesa da saúde global, eu sempre escrevia algo para reafirmar o direito fundamental de todo ser humano à saúde e para pensar a saúde enquanto bem universal, que potencializa a produção de riqueza das nações e contribui para a sua redistribuição.

Porém, com a maior pandemia dos últimos 100 anos ainda em curso no mundo, minhas palavras vão, sobretudo, em agradecimento ao trabalho de todos os profissionais que estão na linha de frente e também na retaguarda da saúde, no Brasil e no mundo, diariamente colocando suas vidas e as de suas famílias em risco. O último relatório da OMS, publicado em outubro de 2021 e considerando o período entre janeiro de 2020 e maio de 2021, estimou que cerca de 180 mil profissionais de saúde morreram por covid-19 no mundo. O Brasil apareceu com 13,6 mil mortes, sendo o quarto país que mais perdeu profissionais.

Todos nós acompanhamos a luta desses profissionais no Brasil, trabalhando sem os equipamentos de proteção adequados, exauridos pelas sucessivas explosões do número de casos, sobrecarregados por sempre haver um grande número de colegas em quarentena. O que os números não mostram é que muitos deles tiveram que se afastar dos familiares, outros tiveram que trabalhar sob o luto das perdas, alguns vivendo a angústia da culpa por se suspeitarem veículos de contaminação.

Mas o quadro de calamidade que se abate sobre o Brasil, com suas 660 mil mortes e, segundo dados do PNAD Covid-19 (IBGE), um crescimento de pessoas na linha da pobreza três vezes superior só no primeiro ano da pandemia, não foi causado apenas pelo vírus. Falo da maldade dos governantes – com honrosas exceções –, a quem cabe assegurar os devidos cuidados à proteção da saúde e da vida de sua gente, mas que, ao contrário, trilharam caminhos de ódio, ganância e quebra dos pactos constitucionais e federativos, negando o uso da ciência, das capacidades e inteligências, obstruindo o diálogo fraterno, renegando compaixão e apoio para o povo, razão maior do poder a eles conferido. Em lugar disso, combateram medidas de isolamento, atrasaram vacinações, negligenciaram suportes materiais e técnicos para as unidades de tratamento, promoveram o uso de medicamentos ineficazes, reduziram o valor de benefícios sociais. Pudemos assistir todos os dias pelos noticiários à luta insana das famílias de trabalhadores entre morrer de fome ou contrair o vírus e dele morrer.

Essa insensibilidade e ignorância desmedida tem ameaçado os grandes feitos do país nas últimas décadas com a construção do Sistema Único de Saúde (SUS). Apesar disso, deve-se ao próprio SUS, com a capilaridade de sua rede e a dedicação de seus profissionais, que não tenhamos tido uma catástrofe ainda maior. Por isso, neste Dia Internacional da Saúde, venho agradecer a todas as categorias de profissionais da saúde, bem como àqueles trabalhadores invisibilizados, como recepcionistas, seguranças e vigilantes, agentes de limpeza e sepultadores, entre outros, por tudo aquilo que têm feito por nosso povo e nosso país.

Espero que ainda haja tempo de pintarmos um retrato esperançoso para o projeto da saúde. Para isso, é preciso renovar nossas forças para reerguermos o país e nossa casa, o Distrito Federal. Não podemos esquecer que não há saída fora da política, e que a boa política é um bem ético e uma enorme força civilizatória. Assim, seguiremos saudando a ciência, o SUS e nossos profissionais. Esses são nossos maiores patrimônios em saúde. Que possamos, enfim, contribuir para a reconstrução da história na perspectiva de um pacto social no país e de uma cooperação global solidária e justa.

 


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